domingo, 10 de agosto de 2008

Já sofri um AVC - Terrível experiência

Hesitei bastante antes de me dispor a contar aqui a experiência de quem passou por um AVC ou mais concretamente, pelas consequências de um AVC.
De facto, eu até nem sei bem o que é ter um AVC, pois nada senti, a não ser a visão de um pequeno clarão semelhante ao de um relâmpago.
Depois a percepção de que a perna esquerda ficava “presa” ao chão.
Seriam 5 horas da tarde de um dia que não quero recordar, o dia imediato ao da ida à consulta da medicina no trabalho e em que os resultados de todos os exames efectuados, incluindo um electrocardiograma, eram os melhores, segundo o médico que os efectuou.
Ironicamente, há destas coisas !
Não me dei conta que a situação era grave, porque o que fiz a seguir – ou melhor o que não fiz – podia ter deitado tudo a perder.
E o que não fiz foi recorrer de imediato às urgências de um hospital, tendo corrido o risco de tornar irreversíveis os danos causados pelo AVC.
De facto, apesar de sentir preso o movimento da perna esquerda e perda de força na mão do mesmo lado, nessa noite ainda fui ao ensaio do coro musical de que faço parte e, também já com algum esforço no pronunciar das frases, cantei como era habitual.
No regresso reparei que o peso da pasta das pautas musicais parecia ser maior, pois oscilava mais do que era costume, quando segura pela mão esquerda.
Não disse a ninguém sobre o que estava a passar-se comigo. Pensava ser algo de passageiro.
Deitei-me, conforme era a rotina de todos os dias, mas sei que tive uma noite de sono pouco calmo.
Acordei de forma desconfortável e salto da cama para ir à casa de banho.
Quando tento pôr-me em pé vou de joelhos ao chão, pois a perna esquerda não tinha a força necessária para aguentar o meu peso.
Fico algo apavorado, mas ainda assim não revelei a minha mulher o que estava a sentir.
Também é verdade que mesmo nesse momento ainda não tinha tomado consciência do que estava a passar-se comigo, embora já tivesse tomado a decisão de ir ao hospital.
Disfarçando o melhor possível o coxear no andamento, ainda fui ao banco pagar a taxa da segurança social da empresa em que trabalhava, porque esse dia era a data limite para o seu pagamento.
Sentia uma dor de cabeça terrível e um batimento cardíaco aceleradíssimo e decido passar pela farmácia para medir a tensão arterial.
Não recordo quais os valores que o aparelho apresentou mas os funcionários, apercebendo-se da situação, disseram logo que eu não tinha condições para andar ali e que devia ir de imediato ao hospital.
Entro no automóvel e embora tivesse muita dificuldade em exercer pressão sobre a embraiagem, feita com o pé esquerdo, consigo chegar às urgências do hospital, onde o pessoal abre a boca de espanto quando me vêem naquele estado e mais ainda quando lhes digo que tinha vindo a conduzir e que tudo havia começado no dia anterior.
Entretanto ia notando que as forças na perna e mão esquerdas diminuíam drasticamente e tinha muita dificuldade em pronunciar as palavras.
Pela expressão e pela reacção do pessoal do serviço de urgências começo então a tomar consciência de que estava mesmo metido em apuros.
Já com a equipa médica à minha volta e a tomar as medidas que a situação impunha entro então em acalmia repentina, possivelmente pelo efeito dos medicamentos, adormeço e só acordo passadas umas longas horas.
E esse despertar foi a coisa mais terrível que já me aconteceu, quando tento puxar a roupa da cama com a mão esquerda e fico com a sensação de que a não tinha, porque ela pura e simplesmente não obedecia à ordem de movimento que estava a dar-lhe.
Experimento fazer o mesmo com o pé esquerdo e o resultado foi igual.
O que me passou pela cabeça naquele momento é uma recordação que já quase apaguei da memória, mas dela dei conhecimento à família passados uns tempos.
Continuei a fazer diversas experiências, como a de querer saltar da cama para ver se conseguia andar, mas sou impedido pela enfermeira que estava por perto a controlar-me.
Vinham à minha memória as imagens do pequeno filme que passava na televisão sobre a vítima de um acidente de viação, que demorava 4 ou 5 minutos a apertar o botão da camisa, enquanto a minha tentativa de fazer o mesmo era simplesmente inútil, porquanto o meu braço nem sequer se mexia.
O pânico tinha tomado conta de mim e a ideia de um disparate era cada vez mais presente.
Via as pessoas internadas na mesma enfermaria a olhar para mim com ar de compaixão e isso só parecia confirmar a minha terrível ideia.
Entretanto, solicito a ajuda da enfermeira para ir à casa de banho urinar. Como resposta deu-me uma arrastadeira, dizendo que a devia utilizar quando tivesse de fazer qualquer necessidade.
Quando tento urinar aconteceu o desastre de fazer para fora, ou melhor, para dentro da cama e começo a interrogar-me como havia de ser com o defecar.
Como reacção do próprio organismo, só consegui evacuar passados dias e depois de um clister, tendo essa situação obrigado os enfermeiros a levar-me para a casa de banho, já que o resultado os obrigou a dar-me banho de seguida.
Não sei quantos dias passaram até ter de novo sensibilidade na perna e mão esquerdas, mas sei que estive muito tempo no hospital, sendo acompanhado por um médico espanhol que teve para comigo uma desvelada atenção, principalmente depois de lhe dar conta dos meus terríveis pensamentos, após me ver naquela situação de quase total dependência.
A palavra trombose é assustadora, por traduzir efeitos visíveis em pessoas conhecidas ou que apenas se cruzam connosco na rua.
E eu bem conhecia algumas dessas pessoas, com danos físicos irreversíveis.
Quando o meu caso “passou” de AVC, ao dar entrada no serviço de urgências, para o de trombose, com que as visitas identificavam desde logo a minha situação, a moral ficou de rastos.
É indescritível a angústia que se sente perante a interrogação sem resposta que passa a estar permanentemente na nossa cabeça:- será que eu também vou ficar como fulano e beltrano, que já sofreram uma trombose ?
Mesmo quando as pessoas tentam animar-nos e nos dizem que aquilo vai passar, no íntimo duvidamos de todos e dizemos para nós próprios que elas só nos estão a consolar, pois bem sabem que já estamos convertidos num vegetal.
Esse era o meu tormento dia e noite, pois mal conseguia dormir, até pelo ambiente pouco calmo de uma enfermaria hospitalar, como era o caso.
Para acentuar o abatimento psicológico que tomou conta de mim, era a resposta negativa do meu braço às constantes tentativas de o levantar, verificando que apenas levantava o ombro, já que o resto se mantinha inactivo. E o mesmo acontecia com a perna esquerda.
Com a língua, as melhoras também não aconteciam, continuando a enrolar-se quando tentava pronunciar bem as palavras.
A certa altura começo ser tomado pela tal ideia disparatada, que já referi, passando a ser obsessiva quanto à sua concretização.
Via os dias a passar muito lentamente e as melhoras pareciam-me não existir, o que me levava a concluir que era um caso sem regresso.
Daí que tenha admitido o pensamento:- se me mandam para casa instalado numa cadeira de rodas, dependendo dos outros para quase tudo, procurarei deitar mão de um qualquer instrumento ou produto que me ajude a acabar com a existência.
PURO DISPARATE, que mais tarde dei a conhecer aos meus familiares.
Também aqui o torno público para dizer que nenhuma situação de doença, por mais terrível que seja, é o limite.
Fiz muita fisioterapia e também as caminhadas passaram a fazer parte dos meus hábitos diários.
Apesar de algumas sequelas, recuperei bastante bem do AVC.
E aprendi que a defesa da saúde depende apenas de nós próprios.
Infelizmente precisei de viver aquela experiência para alterar a forma de estar na vida, passando a “praticar um jogo defensivo”, no que à saúde se refere.
As causas do AVC soube perfeitamente quais foram e que vinham de longe.
Se bem que uma ou outra situação não possa ser evitada ou mesmo controlada, pois nos ultrapassa completamente, outras há que podemos adaptar ao modo de vida, de forma a que não perturbe o nosso bem-estar.
No meu caso, a tensão arterial apresentava-se descontrolada desde há anos e o grande problema era eu julgar que podia conviver com essa situação, como se ela fosse de todo normal.
Os momentos de stress têm sido também uma constante da minha vida, talvez pela forma de ser algo perfeccionista, que leva a exigências difíceis de alcançar, e resultam de compromissos com a comunidade, através de actividades associativas ou não lucrativas.
Tenho procurado modificar o meu estilo de vida, a conselho dos médicos que me acompanham, desligando-me desses compromissos e evitando todas as situações de stress, até porque, depois da amarga primeira experiência, outras se repetiram de menor gravidade mas ainda assim muito desagradáveis, como a de uma amnésia de duração bastante curta e uma crise emocional, que de novo me levou ao serviço de urgências.
A medicação que me é imposta ultrapassa a média mais elevada dos portugueses, pois a minha é de 9 comprimidos diários, enquanto a média nacional se situa em 7, mas só ela me permite uma qualidade de vida sem restrições de maior.
É certo que fiquei refém da medicação; é certo que o inverno é agora mais penoso para mim; é certo que a memória é agora menos eficiente do que antes; é certo que tenho limitações ao nível do esforço físico; MAS ESTOU CÁ.
Tendo formação cristã, hoje sinto vergonha por ter admitido a possibilidade de pôr termo à existência, face ao problema que me atingia naquele momento.
Mas ainda maior vergonha sinto quando penso na família, que nestes momentos é de uma importância vital para a recuperação.
E quero dizer que a minha foi e continua a ser extraordinária na ajuda que me tem dado.
Sempre fui e hoje ainda o sou mais – UM OTIMISTA, OLHANDO A VIDA PELA POSITIVA.
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5 comentários:

Francisco disse...

Boa tarde quero lhe deixar aqui os meus parabéns pela coragem e pela força de vontade que manifesta.
Tenho o meu pai que também teve um avc e lhe prende a perna, embora ele insista bastante na recuperaçao, ainda nao teve grandes melhoras.
Um abraço
martins

ARVaz disse...

Obrigado, Francico.
Desejo as melhoras de seu pai. E a mensagem que lhe deixo é que não desista da recuperação. Sendo uma experiência marcante pela negativa, que no momento nos pode fazer fraquejar, a verdade é que me ensinou uma grande lição - Deus nunca nos abandona !
Boa sorte.
Alvaro

Joice disse...

Olá Álvaro! Minha querida sogra, de apenas 44 anos está passando por esta triste experiência do AVC.O primeiro ocorreu em janeiro deste ano, foi leve. Há uma semana ela teve o segundo.Está acamada, alimentando-se por sonda e usando fraldas.Mas tenho fé de que ela logo vai melhorar. Sua história aumentou minha fé.Obrigada pela generosidade.Abraços de uma irmã brasileira.

MC disse...

Li, com emoção, o seu testemunho corajoso. O me pai, de 91 anos, há 6 meses que está acamado. Temo-lo em casa. Lado esquerdo não mexe, profere alguns sons. Mas está estável. Não sabemos que consciência ele tem do seu estado, até porque já tinha um deficit cognitivo que o afectava.
Médicos e enfermeiros todos disseram que, na idade dele, a fisioterapia nada remediava. Mas tenho sempre dúvidas de não termos tentado mais... E uma profunda dor de ver o meu pai, homem tão activo e lúcido!!, naquele estado vegetativo..
Um abraço,

Maria

ARVaz disse...

Li e julgo entender o que sente. Lamento a situação.E se em qualquer idade podem acontecer as recuperações chamadas de milagrosas, o realismo tem de estar sempre presente. Ver sofrer quem nos é querido, é também um sofrimento que não sabemos se não será maior do que o do próprio doente. Que tudo corra como deseja.