domingo, 14 de março de 2010

Gestos que nos marcam !

Já terei viajado no tempo ao longo de cerca de 10 anos, quando foi notícia o desaparecimento de um conterrâneo. Pessoa muito frágil, em termos de saúde, era sabida a dependência da medicação para a sua estabilidade física.
O desaparecimento foi divulgado, incluindo na TV, e decorrida mais de uma semana de ausência, a preocupação da família era agravada por saber o quanto era necessária para ele a medicação.
Foi então que, numa das minhas deslocações a Lisboa e ao subir a Avenida da Liberdade, junto aos Restauradores, vejo essa pessoa no outro passeio a deslocar-se em sentido contrário. Figura inconfundível para mim, movimentava-se muito lentamente, quase parecendo um sonâmbulo.
Não o perdendo de vista, dirijo-me a um agente da autoridade que estava junto à estação da CP do Rossio, a quem dou conhecimento do facto, e ambos nos dirigimos ao seu encontro.
Dado que tinha um compromisso sujeito a horário, pedi que tomasse conta dele e fosse comunicado à família o seu aparecimento, dando então todas as informações sobre quem era a família. Alertei também para a questão da medicação de que ele carecia.
O agente não me dispensa e pede-me que o acompanhe à esquadra, junto ao teatro D.Maria II, aqui começando uma "aventura" muito semelhante às que são contadas nos episódios de humor, sobre esquadras de polícia com aquelas características.
Sem entrar nos pormenores verdadeiramente anedóticos, ocorridos durante o interrogatório a que fomos sujeitos, eu e o meu conterrâneo (que quase não se mantinha em pé), só depois de longo tempo e já sem ter possibilidade de cumprir o meu compromisso, foi possível sair dali.
Apesar de me ter sido garantido pelo agente de que iam entrar em contacto com a família, achei por bem ir junto de uma estação dos CTT e comunicar directamente à mãe, que me atendeu na chamada telefónica, o aparecimento do filho e o local em que se encontrava. Pediu-me então que voltasse à esquadra e solicitasse que o retivessem até que um familiar ali se deslocasse para tomar conta dele. Assim aconteceu e só depois fui à minha vida.
Quase havia esquecido o episódio, quando recebo em minha casa, passado pouco tempo, a visita do pai desse meu conterrâneo.
Queria dar-me um abraço e agradecer o meu gesto. E fê-lo de tal forma, que jamais esqueci a emoção sentida naquele momento.
Não me tinha parecido relevante o facto de o ter encontrado, considerando que qualquer um faria o que eu fiz.
Mas para um pai, que vive a angústia do desaparecimento de um filho, o seu aparecimento não é encarado da mesma maneira. Só depois me dei conta disso.
No momento não houve palavras que, a terem existido, até acharia normais para agradecer o meu procedimento.
Só um abraço e um "obrigado" carregado de emoção.
Não mais esqueci esse abraço.
E também não mais esquecerei o gesto daquele pai.
Um gesto que me marcou para a vida.
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